Quando o fardão verde-oliva tem mais valor

Recém empossados pela Academia Brasileira de Letras, Fernanda Montenegro e Gilberto Gil desembolsaram “apenas” R$ 30 mil pelo fardão verde-oliva com fios de ouro. E por pouco, o povo do Rio de Janeiro não pagou essa conta

Divulgação ABL

Quando em 1897, Machado de Assis, Rui Barbosa, José Veríssimo e outros notáveis escritores, jornalistas e pensadores empreenderam a nobre tarefa de inaugurar a Academia Brasileira de Letras (nos moldes da francesa), qual teria sido a intenção deles?

Certamente, promover o trabalho literário nacional e incentivar o povo à leitura, reconhecendo e inspirando ao mesmo tempo inúmeros outros escritores e poetas brasileiros. Levando nossas palavras e ideias pelo mundo afora!

Hoje, porém, as preocupações são outras.

Recentemente, a atriz Fernanda Montenegro e o cantor / compositor Gilberto Gil, recém empossados pela ABL, desembolsaram “apenas” R$ 30 mil para pagar a confecção da farda verde-oliva, com os desenhos dos ramos de café bordados em fios de ouro.

O alfaiate contratado foi o que teria apresentado o orçamento mais “barato”, levando em conta que o serviço original da Casa cobraria R$ 50 mil pela confecção.

Recusaram, ainda, a proposta “generosa” do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, de pagar em nome da prefeitura as despesas com as fardas. Claro, um marketing e tanto! Ambos, porém, recusaram, alegando que não havia cabimento em função da pandemia.

Só por causa da pandemia? Sério mesmo?

É de se respeitar o notável trabalho da atriz e do cantor ao longo de suas jornadas, aliás, a posse de ambos é justa e merecida, contudo, perderam grande oportunidade de lançarem um olhar crítico sobre a real função desta instituição que está na direção ERRADA!

Noutros tempos, Ariano Suassuna quebrou tal protocolo, mandando fazer seu próprio fardão com uma costureira do Nordeste. Foi tachado de “Jeca”, claro, por quem não tinha qualquer valor cultural e convenhamos, Suassuna foi um gênio da nossa literatura, que dispensou qualquer fardão ou emblema à frente de seu nome e obra.

Contudo, onde está o bom senso desta turma de “intelectuais”? É certo gastarem R$ 30 mil, R$ 50 mil em uma farda? Fios de ouro? Qual é a verdadeira função da Academia Brasileira de Letras na sociedade? Ditar a moda?

Em um país onde o povo não tem dinheiro para comprar comida, quanto menos para ler! Em um país onde os governos ainda desestimulam a leitura, as artes, mas se oferecem para “bancar” essa conta, como se não tivessem outras prioridades para olhar.

Penso, que não foi esta a intenção com que o “bruxo do Cosme Velho” e tantos outros escritores e poetas ilustres, tais como Olavo Bilac, José do Patrocínio e Graça Aranha fundaram a Academia, que deveria ser referência da cultura e das letras no Brasil!

Esta Instituição que deveria primar por causas nobres e lutar por um povo mais letrado, mais informado, mais preparado para transformar o país com ideias próprias, em vez de discutirem trivialidades enquanto tomam seus “chazinhos”.

Uma Academia que deveria cobrar dos governos um ensino de qualidade no país, sobretudo da nossa língua portuguesa. Que deveria promover a leitura de norte a sul!

Uma Casa que deveria lutar por um conhecimento mais amplo de nossas grandes obras, abrindo caminhos também a escritores contemporâneos e sem recursos.

A periferia está cheia de grandes poetas e escritores, de “Cartolas” que estão por aí e que no mínimo, renderiam grandes obras! Fariam o povo se orgulhar e se inspirar como noutros tempos, nossos poetas e escritores o fizeram tão bem em várias vertentes.

Se ao menos tivessem uma chance…

A sociedade possui talentos que talvez jamais sejam descobertos, por causa desta hipocrisia que os sufocam em detrimento dos nomes famosos, do marketing e da publicidade que isso gera à Casa e aos poderes constituídos.

Uma Academia onde seus membros se reúnem em volta de uma mesa com seus fardões verde-oliva, para discutirem o quê? Mudanças estapafúrdias em uma ortografia já tão complexa de se entender e praticar?

Será que servem apenas para isso? Para complicar a vida do povo em vez de ajudá-lo a se comunicar, a se expressar, a entender e melhorar o seu país?

Uma Instituição que, por exemplo, jamais reconheceu nomes como Vinícius de Moraes, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Mário Quintana, Monteiro Lobato, Cecília Meireles, Clarice Lispector, será que não tinham valor literário ou intelectual em suas épocas?

Será que tinham menos valor intelectual do que por exemplo, José Sarney ou Paulo Coelho?

Com todos esses ritos, como a ABL aproxima o povo das letras? Das poesias? Das artes e da reflexão? Infelizmente, não aproxima, apenas se distancia como uma Instituição das “elites”. Onde poucos são os privilegiados e contemplados por seu “reconhecimento”.

A ABL está a anos-luz do povo, de suas necessidades intelectuais e do ideal que Machado de Assis e tantos outros tiveram ao fundá-la.

Enquanto não acordarem para a real situação do país e tentarem entender o quê uma Academia de Letras significa para o povo e a classe que seus membros representam, sua contribuição à nação é NULA.

E assim será por muito tempo, infelizmente, se os valores ficarem só na aparência.

Fernando Aires é jornalista e pós graduado em Marketing. Membro Correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências de Arraial do Cabo – RJ e da Academia de Letras do Brasil de Votuporanga-SP.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *